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Relatos de adolescentes expõe histórico de vulnerabilidade social

 

Marcos*, 17 anos, está há aproximadamente um mês no Centro de Internação do Adolescente Masculino (Ciam), localizado no bairro do Sideral, em Belém. Ele cumpre medida de internação provisória, após ser apreendido sob a acusação de tráfico de drogas e reflete a realidade de grande parte dos adolescentes custodiados nos espaços da Fundação de Atendimento Socioeducativo do Pará (Fasepa). Sua família tem como renda principal, o salario mínimo da avó, que é pensionista, e recentemente ele viu seu irmão ser assassinado. Para o socioeducando, o período em que está privado de liberdade ajudou a refletir e buscar um novo rumo na vida.

 


“Depois dessa (assassinato do irmão), não me resta alternativa se não mudar de vida já que agora a minha família depende também de mim. Esse tempo em que eu estou aqui já deu pra ‘cair a ficha’ e ver que amigos são nossos pais, que estão aqui quando a gente precisa. A minha família até agradece por eu estar aqui, porque se eu estivesse lá fora eles acham que eu não estaria mais vivo”, diz o adolescente que também sabe o que deve fazer quando sair em liberdade assistida. “O que eu mais quero fazer quando sair daqui é voltar a estudar, arrumar um emprego pra começar a trabalhar, ajudar a minha família e dá orgulho pra eles”, completa.

 


O relato é semelhante aos de demais jovens custodiados no Ciam, unidade de internação provisória, onde o interno deve aguardar, por um período de até 45 dias, uma determinação judicial que encaminhará o adolescente à família, ao cumprimento da medida socioeducativa de internação ou em meio aberto. Apesar do curto período, diversas atividades são desenvolvidas pela equipe técnica da unidade com o objetivo de ressocializá-lo e devolver o socioeducandos à sociedade.


Atendimento - O gestor interino da unidade, Everaldo Vieira, explica a importância do trabalho da equipe técnica que vai avaliar identificar as diferenças e peculiaridades de cada um, além de realizar um trabalho de esclarecimento sobre os seus direitos e deveres, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). “Quando o adolescente chega aqui, na maioria das vezes eles e a família desconhecem todo o tramite processual que ele vai passar. Quando eles chegam aqui, eles acham ou imaginam que já foram julgados e estão cumprindo medida socioeducativa. Nesse período em que eles ficam na provisória eles recebem orientações, esclarecimentos sobre os tramites do processo dos quais estão sendo investigados. É nesse período em que eles se dão conta de que adolescente podem, sim, serem responsabilizados por seus atos”, comenta.

 


Everaldo também declara que muitos adolescentes sentem medo de ser abandonados por familiares e amigos. É nesse momento que entra o atendimento de psicólogos e assistentes sociais buscando esclarecer duvidas e garantir o acolhimento adequado. “Alguns adolescentes ao entrarem aqui, temem que pelo ato que cometeram vão ser abandonados pela família, de que a família vai abrir mão deles. E no acolhimento nós procuramos tirar essas dúvidas, essas inseguranças”, finaliza.

 


O Coordenador de monitoria do Ciam, João Romualdo, atua há 31 anos na socioeducação. Para ele, o planejamento das atividades desenvolvidas para o adolescente faz toda a diferença em seu futuro. “É importantíssimo para que nós possamos garantir as atividades pedagógicas aos jovens para que eles se sintam cada vez mais acolhidos, com sensibilidade no exercício da escuta, do respeito e na compreensão social de todos os aspectos. Cada vez mais nós estamos conseguindo bons resultados através de todo um trabalho que está sendo desenvolvido aqui”, afirma.


Na unidade, os adolescentes tem garantido o acesso a escolarização. Servidor da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), o professor Expedito Ferreira trabalha na unidade com um método diferente do ensino tradicional, buscando a reflexão do socioeducandos e trabalhando de forma a garantir o interesse do jovem que, na maioria das vezes, está afastado da escola.

 

 


“Ele (adolescente) vem totalmente destruído e com isso não consegue harmonia para viver. Nós trabalhamos com a reflexão direcionada para o autoconhecimento e resgate da autoestima, seguindo uma linha que defende uma educação pelo ‘movimento’, usando materiais da própria unidade que possam apoiar essa ideia de liberá-los. A educação deve direcionar a busca da felicidade e consegue isso com a expansão desse conhecimento. Quando a gente começa nessa área, eles começam a descobrir a responsabilidades que eles têm saindo de uma ilusão que o levou a cometer o ato infracional”, explica o professor.


Apoio familiar – Além do trabalho técnico e das atividades pedagógicas, o apoio familiar é fundamental para a ressocialização do adolescente. Nos dias em que são marcadas as visitas aos socioeducandos, à emoção toma conta tanto dos internos quanto de seus familiares, uma mistura de sentimento que vai desde saudade até inconformismo em ver seu filho privado de liberdade. A dona de casa, Maria*, de 43 anos, mora na periferia da grande Belém, dividindo uma casa de três cômodos com outras oito pessoas (seis filhos, um neto e seu atual companheiro) e é uma das pessoas que marca presença na unidade nos dias determinados e não abandona o filho no momento em que mais precisa de apoio. “Eu sempre aconselhei meu filho meu filho para ter cuidado com as más companhias, camaradagem e sobre as consequências do que poderia acontecer se ele não me escutasse. Deu no que deu. Mas às vezes os filhos não escutam a gente. Antes de ele ser apreendido, eu estava notando ele um pouco diferente, um jeito estranho. Ao mesmo tempo em que eu fiquei triste em saber que ele está aqui, por outro lado eu agradeci a Deus pela segunda chance que ele está tendo aqui”, afirma a mãe com certo constrangimento em ver o filho em uma unidade de internação.

 


A mãe afirma ainda que o jovem começou a usar drogas desde cedo, mas demorou a perceber a mudança de comportamento e apesar disso ela reconhece o esforço de todos em resgatar o adolescente e levá-lo de volta a sociedade. “Ele é viciado (usuário) em drogas desde os 12 anos de idade, mas só fiquei sabendo quando ele tinha mais ou menos uns 14 ou 15 anos. Hoje ele tá com 17 anos. Todas as vezes que eu vim aqui, sempre fui muito bem atendido pela equipe. Os conselhos que antes eu dava pra ele, hoje quem faz isso é a equipe do espaço, e isso eu sou eternamente grata por isso. Ele me diz que quer mudar, quer sair daquela vida que estava tendo lá fora, eu rezo muito pra que ele realmente mude de vida de verdade e visse ser uma pessoa de bem. Eu sei que ele vai encontrar um caminho correto pra vida dele”, relata a mãe com esperança de uma vida melhor para seu filho.

 


O mesmo sentimento é compartilhado pelo Carlos*, de 17 anos, que está há 41 dias no espaço e prestes a ter sua sentença definida pelo judiciário. Ele reconhece que seguiu por um caminho que o levou até a unidade de internação provisória, mas revela vontade de mudar e dar orgulho a sua mãe. Quando a gente não escuta os conselhos das pessoas que querem o nosso bem, olha só no que dá! A única pessoa que o visita no prédio da Fasepa. “A minha cabeça mudou muito desde quando eu cheguei aqui, a gente acha que pelo fato de ser adolescente ‘não pega nada’, isso é um engano. A única pessoa da minha família que vem me ver a minha mãe, ela significa tudo pra mim. Assim que eu sair daqui, a minha mãe vai me matricular na escola, eu quero aprender coisas novas e fazer um curso profissionalizante pra começar a trabalhar”, declara.

 

(Com colaboração de Alberto Passos)


*Nomes fictícios para preservação da identidade, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescentes (ECA).


Texto: Tiago Furtado

Fotos: Alberto Passos e Dani Valente / Ascom Fasepa

 

 

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