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Adolescentes da Fasepa transformam literatura em espetáculo no Margarida Schivasappa

 

João*, de 17 anos, é natural de Bragança, nordeste do Pará. Há sete meses cumpre medida socioeducativa em uma unidade de internação do Estado após cometer um ato infracional no município onde reside. Ele viveu uma experiência inédita na manhã esta terça-feira (5): participou de um espetáculo de teatro diante de dezenas de pessoas que se reuniram no Teatro Margarida Schivasappa, em Belém, ao lado de outros 30 adolescentes e jovens privados de liberdade. Uma iniciativa pioneira no país que busca promover a ressocialização por meio da arte, fruto das atividades e oficinas pedagógicas realizadas dentro de espaços gerenciados pela Fundação de Atendimento Socioeducativo do Pará (Fasepa).

 

 

“Eu nunca tinha vindo em um teatro e isso ficará marcado em mim”, disse o socioeducando. Tímido, ele revelou a vontade de deixar de lado o que ficou para trás e pensa em seguir em um futuro completamente novo. Com os primeiros passos sendo dados hoje. “Isso despertou algo dentro de mim, pensar na minha vida e sair do mundo das drogas. Quem sabe me tornar um ator?” completou.

 

 


A apresentação teatral fez parte do “IV Sarau Literário da Socioeducação”, promovido pela Fasepa, em parceria com a Imprensa Oficial do Estado (IOE), SECRETARIA DE ESTADO DE EDUCAÇÃO (SEDUC) e Secretaria de Estado de Cultura (Secult), em uma iniciativa que integra a programação da 22ª Feira Pan-Amazônica do Livro. A programação busca levar obras literárias para escolas estaduais e também unidades socioeducativas. Esse ano a obra selecionada foi “Relato de Um Certo Oriente”, do autor Milton Hatoum. Obra de 1989 que fez o escritor amazonense receber o prêmio “Jabuti” de melhor romance ao mostrar as dificuldades presentes na convivência diária de familiares e amigos, com seus diferentes segredos e comportamentos.

 

 


Para apresentar o espetáculo ao público, foi necessária uma série de ensaios com os adolescentes dentro das próprias unidades socioeducativas do Pará. Sucedido do estudo da obra do autor pelos servidores da Fasepa e socioeducandos. O arte educador Emiliano Picanço foi um dos funcionários que montou cenas e ensaiou de forma continua com os meninos e meninas. Para ele, que está desde o primeiro Sarau Literário da Socioeducação realizado em 2015, a sensação é de dever cumprindo ao ver o resultado do trabalho desenvolvido por todos os servidores junto aos internos. “Lemos o livro e levamos a metáfora durante as apresentações com o objetivo de passar nossa mensagem. Só temos a agradecer por tudo o que aconteceu. Tiramos de dentro da alma de cada socioeducando a alegria e fizemos que eles contassem suas próprias histórias. Esse Sarau leva uma gama de conhecimento grande para todos, passando alegria e esperança para o público”, disse o servidor.

 

 


Após a apresentação, o escritor Paulo Maués, que acompanhou toda a encenação no Margarida Schivasappa, destacou que o espetáculo é uma prova de que é possível conseguir a ressocialização por meio da arte. “Esse tipo de atividade deveria acontecer sempre. Se existe algo que pode restituir a cidadania é a presença da arte e o que vi aqui foi muito tocante. Todos envolvidos, alguns mais acanhados, mas todos com um trabalho bonito de ver”, destaca.

 

 


A Imprensa Oficial do Estado (IOE) é idealizadora do Sarau Literário nas escolas públicas e parceira da Fasepa na execução do evento nas unidades socioeducativas, indicando a obra que será encenada. O presidente da instituição Cláudio Rocha, apontou a transformação de vida dos adolescentes como principal trunfo que a iniciativa possui, abrindo os olhos para um universo completamente diferente daquele que ele estava acostumado. “Eu imagino esse adolescente lendo um livro, fechando os olhos e pensando no futuro dele e no novo rumo que pode tomar. A leitura é basicamente isso, uma transformação. Para a imprensa oficial é um privilégio ver a transformação na vida desses adolescentes e nos deixa empolgados em ver que estamos contribuindo com o processo de ressocialização. Trazendo a literatura e incentivando o contato desses adolescentes com a leitura e escrita”, disse.

 

 


A coordenadora do Livro Solidário, pertencente à IOE, Carmem Palheta, declarou que a realização do Sarau Literário junto a Fasepa, pelo quarto ano consecutivo, mostra que o trabalho tem dado bons frutos. “Uma parceria que se renova cada vez mais. Os meninos mergulham nas histórias que são propostas e conseguem transferir isso para outra leitura fora das páginas dos livros, dentro da área teatral, poesia e música. Essas manifestações culturais reforçam a importância da literatura na vida de cada um e no processo de reinserção na sociedade”, observou.

 

 


De acordo com o presidente da Fasepa, Simão Bastos, essa é a culminância de uma série de atividades que consolidam o processo de desenvolvimento social dos adolescentes. Descobrindo talentos que, por uma série de situações, estavam escondidos dentro deles. “Esse é um momento muito feliz para a Fundação, com a fusão de vários talentos revelados nas oficinas em uma mobilização de toda a comunidade socioeducativa. Nos sentimos com um novo paradigma positivo instalado no atendimento socioeducativo. Oferecendo oportunidade para aqueles que muitas vezes não conheciam a arte, a música e outros elementos”, detalha.

 

 


Ao final do evento, o adolescente João*, do início desta reportagem, destacou que a apresentação de hoje serve como reflexão sobre como ele era antes de entrar na medida socioeducativa e já vislumbrar o que espera e pretende alcançar quando sair em liberdade. “Antes tinha vergonha de falar em público, agora gostei bastante. É sair daqui e dar uma vida melhor pra mim e pra minha mãe. Isso aqui é uma nova oportunidade e pensar no que fez, para recomeçar e fazer tudo novo”, concluiu.

 

*Nome fictício para preservação da identidade


Texto: Tiago Furtado

Fotos: Fernando Sette Câmara / ASCOM IOE

 

 


 

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