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Novo conceito em atendimento socioeducativo é destaque em unidade de Benevides

 

Quando o Centro Socioeducativo de Benevides foi inaugurado, uma nova fase na aplicação das políticas públicas direcionadas ao atendimento socioeducativo no Pará teve início. A unidade, que é administrada pela Fundação de Atendimento Socioeducativo do Pará (Fasepa), foi construída com a capacidade para atender 60 socioeducandos em regime de internação. Distante 30,67 quilômetros da capital, o espaço surgiu da necessidade do Estado em se adequar ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e aos parâmetros arquitetônicos estabelecidos no Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase).

 

 


Esse formato trouxe uma nova concepção no que diz respeito à estrutura física e os resultados obtidos no atendimento a adolescentes e jovens autores de ato infracional nas unidades de internação da Fasepa, apesar de o centro ter sido concluído um ano antes da promulgação da lei federal Nº 12.594 do Sinase.

 

 

O espaço conta com uma equipe multidisciplinar composta por aproximadamente 180 servidores, entre assistentes sociais, psicólogos, pedagogos, agentes administrativos, monitores, enfermeiros, entre outros que desenvolvem suas atividades na perspectiva de contribuir para a ressocialização dos jovens. Um dos trabalhos mais importantes dentro dessa ‘engrenagem’ socioeducativa é desenvolvido pela equipe de monitoria que desempenha um papel importante na prevenção e no acompanhamento de situações dentro e fora da unidade socioeducativa. Reuniões e rodas de conversa entre esses profissionais acontecem sistematicamente para alinhar a atuação entre os diferentes setores.

 

 


A assistente social que trabalha no CSEB, Yulli Lima, diz que “nós precisamos olhar esse adolescente na sua totalidade, assim como as particularidades que os diferenciam. Cada um tem a sua característica e traz uma história de vida que, em geral, é marcada por situações de conflito e violência. Até chegarem à medida socioeducativa, uma série de direitos foi violada e a maneira que eles têm ou encontraram para se expressar e conseguir as coisas, muitas vezes é através da violência. Nós sempre fazemos os encaminhamentos para a rede socioassistencial quando é necessário. Conseguir tirar o jovem desse contexto de situação de risco e vulnerabilidade social é o primeiro passo para que ele tenha uma vida saudável lá fora”, observou Yulli.

 

 


“Para quem quer realmente mudar, aqui é a mudança mesmo. A pessoa quando fica presa entre quatro paredes, tem que pensar no que vai querer para sua vida. Hoje eu me arrependo muito daquilo que fiz e, se pudesse voltar a trás, voltaria. Aqui eu já fiz oficina de violão, aprendi a fazer pão na padaria e várias outras coisas que quando eu chegar lá fora eu possa aprender ainda mais, porque o meu foco é continuar aprendendo mais e mais”, frisou o jovem Ricardo (nome fictício), de 17 anos, acompanhado da mãe e da irmã durante a visita familiar.


PROJETO - O Projeto Ressignificando Caminhos na Socioeducação é a diretriz metodológica que norteia um conjunto de ações pedagógicas que são desenvolvidas pelos jovens diariamente em todas as 14 unidades socioeducativas da Fasepa, na perspectiva da inclusão e participação social. Nesse sentido, os jovens são inseridos na escolarização e participam de cursos e oficinas profissionalizantes voltadas à inserção no mundo do trabalho. Momentos de espiritualidade, arte, esporte, cultura, lazer e empreendedorismo são algumas das atividades realizadas pelos socioeducandos.

 

 


“A maioria do nosso público vem de um histórico em que eles estão fora da escola por diversos motivos: más companhias, o comprometimento com drogas, violência familiar e, por conta disso, eles acabam se distanciando do ambiente escolar”, observou a pedagoga da unidade, Ingrid Souza. “Muitas vezes a própria família constrói uma ideia de que o trabalho é mais importante do que os estudos, a escola, e consequentemente a educação deixa de ser uma prioridade. Além disso, eles também verbalizam que a escola não chama a atenção, já que na visão deles, os professores trabalham uma metodologia onde eles não se sentem atraídos e estimulados em aprender, e com isso acabam se evadindo do ambiente escolar. E aqui a gente trabalha para desconstruir esse pensamento deles”, finalizou.


A partir de uma série de instrumentais técnicos que norteiam a condução do trabalho, a equipe técnica atende não somente os adolescentes que estão privados de liberdade, mas também suas famílias, visando o resgate e o fortalecimento dos vínculos afetivos e a interação entre esses atores no processo socioeducativo. A presença das famílias é uma realidade nas unidades socioeducativas através da participação nas programações realizadas nos espaços socioeducativos, assim como o acompanhamento dos profissionais durante as visitas domiciliares e a visita familiar in loco que acontece em dias previamente agendados.

 

 


A irmã do jovem Ricardo, diz que faz semanalmente visita ao irmão e explica que a partir do momento que o jovem passou a cumprir medida socioeducativa, a família se uniu em prol da recuperação do rapaz, já que antes não havia diálogo entre eles. “Antes do meu irmão vim pra cá, eu não conhecia o trabalho da Fasepa. Pensei que fosse igual a esses presídios que a gente vê na televisão, que ele não teria oportunidade de nada, ficaria preso cumprindo a medida sem aprender nada. Com o passar do tempo, começamos a ver a mudança dele, que passou a ter outro tipo de pensamento”, ressalta. Ela avalia o trabalho da Fundação de forma positiva na vida do irmão. “Comecei a perceber que a Fasepa é uma escola, uma oportunidade para o adolescente que tá no ‘mundo’, que não teve uma oportunidade de ter pai e mãe pra conversar, mas aqui eu vejo as técnicas como uma segunda mãe e aqui uma segunda casa pra quem realmente está disposto a mudar de vida. Por que não adianta todo esse trabalho se o jovem não quiser mudar de vida”, finalizou.


Ainda que os jovens estejam privados de liberdade, o artigo 53 do ECA diz que a criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo pra o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho. Por meio das atividades relacionadas à educação profissional, a Fasepa mantém parcerias com diversas instituições públicas e empresas da iniciativa privada, com o objetivo de promover ações que contribuam para o direcionamento e a qualificação profissional dos jovens para que possam refazer seus projetos de vida. Por isso, está matriculado e ter frequência escolar são requisitos básicos para que os socioeducandos sejam inseridos em cursos profissionalizantes ainda cumprindo a medida socioeducativa.

 

Texto: Alberto Passos

Fotos: Franklin Salvador / Ascom Fasepa


 

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